Contran extingue obrigatoriedade de aulas em autoescola para tirar CNH

Contran extingue obrigatoriedade de aulas em autoescola para tirar CNH

Sem aulas em autoescola, governo afirma que medida deve reduzir em 80% os custos para tirar carteira de motorista; norma mantém provas práticas e teóricas; para valer, texto terá de ser publicado no Diário Oficial da União

O Conselho Nacional de Trânsito (Contran) aprovou, nesta segunda-feira (1/12), a resolução que muda o processo de obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). A principal mudança é o fim da obrigatoriedade de frequentar aulas em autoescola na preparação para os exames teórico e prático dos departamentos de Trânsito (Detrans).

Com isso, o custo para tirar o documento, que hoje chega a R$ 5 mil, poderá cair em 80%.

Após passar por consulta pública, o texto proposto pelo Ministério dos Transportes foi aprovado por unanimidade pelo Contran e entrará em vigor assim que for publicada no Diário Oficial da União.

De acordo com a pasta, o objetivo das mudanças é modernizar o processo de obtenção da CNH e tornar o documento mais acessível e barato para a população, especialmente nas categorias A (motocicletas) e B (veículos de passeio). Segundo dados da Secretaria Nacional de Trânsito, 20 milhões de brasileiros já dirigem sem habilitação e mais 30 milhões têm idade para ter a CNH mas não possuem o documento.

Além de tornar o trânsito mais seguro, o ministro dos Transportes, Renan Filho, argumenta que a proposta também busca promover a inclusão produtiva.

“O Brasil tem milhões de pessoas que querem dirigir, mas não conseguem pagar. Baratear e desburocratizar a obtenção da CNH é uma política pública de inclusão produtiva, porque habilitação significa trabalho, renda e autonomia. Estamos modernizando o sistema, ampliando o acesso e mantendo toda a segurança necessária”, afirmou, em comunicado.

A resolução prevê que o candidato possa escolher diferentes formas de se preparar para os exames teórico e prático, que continuarão obrigatórios para a emissão da CNH. Ainda segundo Renan Filho, são esses exames que atestam se o condutor está devidamente capacitado para dirigir.

“O novo modelo segue padrões internacionais adotados por países como Estados Unidos, Reino Unido e Canadá, onde o foco é a avaliação, não a quantidade de aulas”, explicou.

O que muda sem aulas em autoescola

A abertura do processo para tirar a CNH poderá ser feita diretamente pelo site do Ministério dos Transportes ou por meio da Carteira Digital de Trânsito (CDT). O cidadão ainda precisará comparecer presencialmente a etapas como coleta biométrica e exame médico.

A resolução prevê curso teórico gratuito e digital. O ministério disponibilizará o conteúdo online sem custos para o candidato mas, quem preferir, poderá estudar presencialmente em autoescolas ou instituições credenciadas.

Também haverá flexibilização das aulas práticas e abertura para instrutores credenciados pelos Detrans, aumentando as opções para o cidadão. O novo modelo retira a exigência de 20 horas-aula práticas. Agora, a carga horária mínima será de duas horas.

O candidato poderá escolher como fará sua preparação: contratando um centro de formação de condutores tradicional ou um instrutor autônomo. Nenhum profissional poderá atuar sem credenciamento oficial: todos passarão por fiscalização pelos órgãos estaduais, deverão cumprir requisitos padronizados nacionalmente e serão identificados digitalmente na CDT.

O texto também prevê a facilitação dos processos de obtenção da CNH para as categorias C (veículos de carga, como caminhões), D (transporte de passageiros, como ônibus) e E (carretas e veículos articulados) permitindo mais opções de formação, com o objetivo de tornar o processo mais ágil e menos burocrático.

 

 

Em muitos países desenvolvidos — como Estados Unidos, Reino Unido e Canadá — a lógica da formação de condutores é diferente da adotada no Brasil. Lá, o foco é a avaliação final, e não a quantidade de aulas obrigatórias. Isso acontece devido a três princípios amplamente adotados em seus padrões regulatórios:


1. O Estado define a competência, não o percurso de aprendizagem sem aulas em autoescola

Nesses países, os órgãos de trânsito definem o que o candidato precisa demonstrar para ser considerado apto a dirigir:

  • domínio do veículo

  • respeito às regras de trânsito

  • direção defensiva

  • capacidade de reagir a situações comuns de risco

Ou seja, o governo define padrões de resultado, não padrões de processo.

👉 Se o candidato consegue demonstrar essas competências, ele está apto — independentemente de quantas aulas teve, se teve aulas ou se aprendeu com familiares.


2. Aulas de direção não são vistas como um serviço monopolizado

Ao contrário de modelos mais rígidos, como o brasileiro, esses países permitem que o aprendizado seja feito de várias formas:

  • com instrutor profissional, sem aulas em autoescola

  • com pais ou responsáveis, sem aulas em autoescola

  • praticando em vias públicas após tirar uma carteira provisória (learner’s permit, G1, provisional licence, etc.)

  • usando veículos da família

O aluno treina quando quiser e paga por aulas apenas se desejar.


3. A responsabilidade recai totalmente sobre a prova

Como o processo formativo é livre, a prova prática funciona como um filtro rigoroso.

🇺🇸 Estados Unidos

Dependendo do estado, o candidato:

  • precisa passar por um exame teórico para obter o learner’s permit

  • dirige sob supervisão quanto tempo quiser

  • marca o exame prático quando se sentir preparado

Não há exigência de aulas formais (embora alguns estados recomendem ou exijam poucas horas supervisionadas pelos pais).

🇬🇧 Reino Unido

Existe um dos testes práticos mais difíceis do mundo, mas:

  • não existe número mínimo de aulas profissionais

  • o candidato pode treinar com qualquer pessoa habilitada e com carro sinalizado

  • escolas de direção são opcionais

O critério é simples: ou você demonstra competência, ou falha.

🇨🇦 Canadá

O sistema GDL (Graduated Driver Licensing):

  • dá ao candidato uma permissão inicial (G1)

  • permite que ele treine livremente

  • só exige cursos em alguns programas acelerados, mas nunca como pré-requisito universal

  • a aprovação depende exclusivamente da habilidade mostrada no exame


4. Avaliação rigorosa substitui o controle de aulas

Ao exigir uma prova prática realista, imparcial e difícil o bastante, não é necessário obrigar aulas.
O próprio medo de reprovar faz o candidato se preparar bem — com instrutor, com familiares ou sozinho.

Ou seja, o Estado não precisa controlar quanto o candidato aprende, apenas se ele realmente sabe dirigir.


Em resumo

Padrões internacionais desses países seguem a lógica:

“Demonstre competência — não importa como você aprendeu.”

  • Não obrigam aulas de direção

  • Priorizam liberdade de aprendizagem

  • Baseiam todo o sistema na avaliação final rigorosa

  • Transferem ao candidato a responsabilidade por estar preparado

Por isso, o foco não é quantidade de aulas, mas qualidade da avaliação