POR QUE FURLAN FAZ O L?

POR QUE FURLAN FAZ O L?

O ex-prefeito de Barueri voltou a defender Lula. Mas o apoio representa uma mudança de convicção política ou apenas mais um capítulo da velha arte de estar sempre perto do poder?

POR VINICIUS ALMEIDA

A política de Barueri tem dessas coisas curiosas: depois de décadas construindo sua trajetória no campo político tradicionalmente associado ao centro e à centro-direita, Rubens Furlan resolveu, mais uma vez, fazer o L. Em 2022, declarou apoio a Lula. Agora, em 2026, voltou a defender publicamente o presidente, inclusive em eventos realizados ao lado de Geraldo Alckmin. O curioso não é um político mudar de opinião. Isso acontece. O curioso é descobrir quando a mudança representa uma transformação de pensamento e quando representa apenas uma capacidade de adaptação às circunstâncias.

É preciso reconhecer que Furlan teve sua importância no desenvolvimento de Barueri. Empresário, ex-prefeito e figura central da política municipal durante décadas, construiu sua carreira muito mais próximo do pragmatismo administrativo e das alianças tradicionais do que das bandeiras históricas da esquerda brasileira. Passou muitos anos no PSDB, partido de Fernando Henrique Cardoso e Geraldo Alckmin, antes de migrar para o PSB em 2023 e é bem verdade que seus governos foram marcados por programas sociais e políticas assistenciais. Mas distribuir benefícios, inaugurar equipamentos públicos e cultivar uma imagem de “protetor dos mais pobres” não transforma automaticamente ninguém em um socialista/progressista…

O mais interessante é observar como essa aproximação aconteceu: em 2022 Furlan justificou seu apoio a Lula principalmente pela presença de Geraldo Alckmin na chapa presidencial. Ou seja, não foi exatamente uma descoberta repentina das “virtudes do pensamento político petista”, mas uma aproximação intermediada por um velho aliado. Agora, quatro anos depois, o discurso reaparece com maior intensidade: o ex-prefeito fala em defesa dos pobres, relembra a ditadura militar e assume publicamente uma posição que, durante boa parte de sua trajetória, não foi sua principal identidade política. Teria Furlan passado por uma profunda transformação ideológica ou simplesmente descoberto que antigas amizades continuam abrindo portas importantes?

Além disso, há ainda uma semelhança interessante entre os estilos políticos de Furlan e Lula: ambos desenvolveram forte capacidade de comunicação popular, construíram relações pessoais com o eleitorado e compreenderam, como poucos, o valor político dos programas sociais. Mas existe uma diferença fundamental entre política social e assistencialismo eleitoral. A primeira procura ampliar direitos, autonomia e oportunidades. O segundo corre o risco de transformar benefícios públicos em instrumentos de dependência política. Em Barueri, essa distinção merece ser discutida seriamente, afinal uma cidade que distribui benefícios há décadas também precisa demonstrar o quanto conseguiu reduzir a necessidade permanente de sua população depender deles.

E então chegamos à pergunta que realmente importa: por que agora? Em um momento de rearranjos políticos, disputas eleitorais e incertezas sobre o futuro de Barueri, a aproximação com o presidente da República pode representar convicção, estratégia ou uma combinação bastante conveniente das duas coisas. Não há nada de ilegítimo em apoiar Lula, assim como não haveria em apoiar qualquer outro candidato. O problema começa quando a população não consegue distinguir o projeto político das conveniências de ocasião. Uma coisa é defender ideias! Outra, bem diferente, é defender alianças que mudam conforme a direção dos ventos…

No fim das contas, talvez a questão não seja simplesmente por que Furlan faz o L, mas o que esse L representa. Seria de Lula? De lealdade? De liberdade para mudar de opinião? Ou de uma longevidade política que aprendeu a sobreviver independentemente de quem ocupa o Palácio do Planalto? A história de Barueri mostra que Furlan sempre soube fazer política, construir alianças e permanecer (de alguma forma) relevante. Mas a cidade tem o direito de perguntar se essa nova identidade corresponde a um projeto de sociedade ou apenas à continuidade de um projeto de poder. Porque mudar de posição é legítimo. O que merece explicação é mudar o discurso sem esclarecer o que realmente mudou nas convicções. E, nesse caso, talvez o L mais interessante não seja o de Lula, mas o de longevidade no poder.