Em Barueri, São João sem São João

VINICIUS ALMEIDA – Talvez aqui na cidade o problema não seja a festa. Talvez seja a dificuldade cada vez maior de compreender que cultura não é apenas entretenimento! Cultura é memória

Barueri conseguiu realizar um feito que parecia impossível: criar uma Festa de São João sem São João! É uma inovação cultural digna de estudo. Em algum momento entre as reuniões de marketing, os vídeos para redes sociais e os anúncios de grandes atrações, alguém deve ter perguntado: “E se a gente fizer uma festa junina sem dar protagonismo para a cultura junina?”

A resposta parece ter sido um sonoro “SIM”!!!!

Falo isso porque basta olhar a programação da festa de junho para surgir uma dúvida bem simples: o que exatamente ela tem a ver com São João? Não se trata de questionar a qualidade dos artistas convidados – muitos deles possuem público, sucesso e carreira consolidada. A questão aqui é outra. Se uma festa foi criada para celebrar as tradições nordestinas, a cultura popular, o forró, a quadrilha, a sanfona, a zabumba e também o acordeão, por que esses elementos aparecem quase como figurantes dentro da festa da cidade de Barueri?

Isso lembra a seguinte situação: é como organizar uma Oktoberfest sem cerveja, um Carnaval sem samba ou uma Festa Italiana servindo sushi! Talvez o próximo passo seja promover uma Festa do Peão sem cavalos e uma Festa das Nações onde todos os países sejam substituídos pelo mesmo cardápio… A “criatividade” da gestão da cidade de Barueri parece não ter limites quando o assunto é reinventar eventos tradicionais até que eles deixem de ser reconhecíveis para a própria população.

O mais curioso é que Barueri possui inúmeros músicos, grupos de forró, artistas populares, quadrilhas e coletivos culturais capazes de representar com autenticidade aquilo que a festa deveria celebrar. Mas, como acontece com frequência aqui na cidade, a cultura local parece servir mais como uma “decoração” do que como protagonista. O palco principal fica para os grandes nomes! A identidade cultural fica para depois…

E então chegamos ao momento mais surreal da história: em uma celebração ligada a Santo Antônio, São João e São Pedro, não seria atípico imaginar padres participando da abertura das festividades – como é feito há tanto tempo nas festividades. O estranho é imaginar os líderes religiosos, os padres no caso, dividindo a celebração (o palco mesmo) em uma programação com as cantoras Ludmilla e Iza – será que alguém pensou nisso? Em algum lugar entre a tradição católica e os grandes shows, a coerência resolveu pedir licença e foi embora…

Talvez aqui na cidade o problema não seja a festa. Talvez seja a dificuldade cada vez maior de compreender que cultura não é apenas entretenimento! Cultura é memória, identidade e pertencimento: em especial em Barueri. Quando uma cidade troca suas referências por uma programação pensada apenas para gerar público e repercussão nas redes sociais, ela pode até lotar a praça, mas corre o risco de esvaziar o significado! E uma Festa de São João sem forró, sem o protagonismo nordestino e sem valorização das próprias tradições acaba se tornando exatamente isso: uma grande festa – só que de São João, cada vez menos.