PÃO, CIRCO E FOGOS DE ARTIFÍCIO

PÃO, CIRCO E FOGOS DE ARTIFÍCIO

Há dois mil anos, imperadores romanos sabiam que grandes espetáculos reduziam a insatisfação popular; em Barueri, o brilho do foguetório ofusca os problemas da saúde pública

POR VINÍCIUS ALMEIDA
@viniciusalmeidabarueri

Nesta terça-feira, dia 24 de junho, a cidade de Barueri promete parar para assistir a uma das maiores queimas de fogos do estado de São Paulo! O espetáculo deve iluminar o céu da cidade durante alguns minutos, arrancar aplausos, gerar vídeos para redes sociais e render belas fotografias. E, como todo grande espetáculo, tem um custo. Neste caso, próximo de um milhão de reais dos cofres públicos.

Não há dúvida de que a apresentação é bonita: os fogos sempre foram feitos para impressionar. O problema é que o brilho dura cerca de dez ou quinze minutos – somente isso. Já as filas nas unidades de saúde costumam durar meses! Os fogos desaparecem no céu. A falta de medicamentos, consultas especializadas e exames continua no chão, no cotidiano…

Talvez seja justamente por isso que a comparação com a Roma Antiga seja tão inevitável com esse cenário atual; há mais de dois mil anos, os imperadores romanos descobriram que os grandes espetáculos ajudavam a reduzir a insatisfação popular no período. Eles distribuíam comida, promoviam eventos grandiosos e mantinham a população “entretida” enquanto questões estruturais permaneciam sem solução. A história registrou essa prática com um nome simples: “pão e circo”.

Em Barueri, obviamente, ninguém está distribuindo trigo no Coliseu – os tempos são outros. Mas a lógica parece bastante familiar! Enquanto os moradores reclamam da dificuldade para conseguir consultas, da demora em determinados atendimentos e também da falta recorrente de medicamentos em equipamentos públicos de saúde, o poder público investe pesado em eventos de grande visibilidade. Afinal, uma fila na Farmácia Central não viraliza! Um céu iluminado por milhares de explosões coloridas, sim.

O mais curioso disso é que quem questiona esse tipo de gasto quase sempre recebe a mesma resposta: “uma coisa não tem nada a ver com a outra”. Na teoria, talvez não… Na prática, tem tudo a ver! Porque orçamento público é exatamente isso: a escolha de prioridades. A cada real investido vai se mostrando aquilo que o governo considera mais importante mostrar para a população – em especial em ano de eleição.

E talvez esse seja o verdadeiro debate. Não é sobre ser contra festas, cultura ou celebrações populares – eu sou um entusiasta delas. É sobre perguntar se uma cidade como Barueri que ainda convive com problemas básicos deveria gastar quase um milhão de reais em quinze minutos de espetáculo. Porque quando as luzes se apagam, os vídeos terminam e os últimos fogos desaparecem no céu, a realidade continua esperando no dia seguinte. A consulta vai continuar pendente (para sabe-se lá quando ao longo do ano ou do próximo). O medicamento continua faltando (e a doença presente). E a conta, como sempre, continua chegando para o contribuinte e para o cidadão (que já está tão cansado de não ser tratado como merece na cidade).

Talvez o maior espetáculo desta noite não seja a queima de fogos. Talvez seja a capacidade da política de transformar problemas permanentes em distrações temporárias. Os romanos entenderiam perfeitamente. E alguns grandes nomes da cidade de Barueri, também.

E fim de papo.