Em época de eleição sempre aparece um cidadão/morador indignado com a cidade, mas com a mão super estendida esperando um “favor”, uma promessa
Quem teve a oportunidade de viver nos anos 80 vai lembrar dessa famosa propaganda de cigarro: “Pra você que gosta de levar vantagem em tudo, certo?”. A frase virou meme antes de existir a internet! Pois bem, algumas décadas depois e essa frase continua bem viva – só que dessa vez aplicada à política local. Em uma época de eleição, então, nem se comente… Sempre aparece um cidadão/morador indignado com a cidade, mas com a mão super estendida esperando um “favor”, uma promessa, uma ajuda do tipo “especial”. Reclamar do sistema atual virou hobby. E cobrar uma taxa social, um tipo de vantagem pessoal secreta, um tipo de obrigação.
O problema recorrente e enraizado na política local (e até mesmo nacional) é que muita gente quer uma cidade melhor, mas não quer mudar o seu próprio comportamento. Quer um hospital funcionando, remédios na farmácia municipal, um transporte decente, as ruas todas asfaltadas – mas aceita trocar o voto por um churrasco, uma cesta básica, saco de cimento, um subemprego temporário ou uma promessa vazia. Depois, quando tudo continua ruim e a vida se atrapalha toda nos desafios sociais, a culpa vira sempre “dos políticos”. Como se o eleitor tivesse sido apenas um espectador inocente e que não tivesse cobrado um tipo de “pedágio” para deixá-lo assumir o cargo.
Vamos ser bem honestos e sinceros nesse ponto: quem vende ou vendeu o voto, vende(u) também o direito moral de reclamar. Pode até protestar, gritar, bater panelas, postar indignação nas redes sociais, mas a incoerência é grande demais para passar despercebida atualmente. Se você ajudou a colocar alguém no poder por interesse pessoal imediato, não pode fingir surpresa quando esse alguém governa só pensando em interesses próprios. Ele “paga” na frente para poder tirar tudo com juros e correção monetária nos próximos anos. E vai ser sem dó e atualizando em muitas vezes o valor! E quem se vendeu vai ter que observar tudo com a maior passividade, sem nada poder fazer nos anos seguintes. Infelizmente…
Essa lógica da vantagem individual/pessoal destrói qualquer projeto coletivo pensado para um futuro promissor, em especial na cidade. A política vira praticamente um mercado informal: troca-se apoio por “favor”, silêncio por benefício próprio, lealdade por verdadeiras migalhas. O resultado disso tudo é altamente previsível – gestores muito fracos, corrupção naturalizada/generalizada e uma cidade que não avança porque foi construída em cima de acordos pequenos, medíocres, mesquinhos e totalmente temporários. Nenhuma visão de longo prazo para um possível futuro da cidade.
Enquanto o voto for tratado como moeda de troca, como atualmente acontece, a gestão pública continuará sendo um problema crônico. Quase como um tipo de câncer que vai tomando as partes funcionais do sistema… Afinal, quem “pagou” para estar lá vai querer “receber de volta” e com todas as atualizações possíveis e imagináveis. E isso não vai vir em forma de políticas públicas, mas em privilégios, contratos, cargos, nepotismo e esquemas dos mais diversos tipos. Não é ideologia. É a matemática básica do mau governo que se expande e que permanece dentro do próprio sistema, vez após vez.
Talvez esteja no momento mais certo de atualizar o antigo slogan para: “Pra você que gosta de tirar vantagem em tudo… parabéns, você também está ajudando a travar e afundar a cidade”. Barueri – e qualquer outro município do território nacional – só vai mudar quando o eleitor parar de se vender e começar a votar pensando no coletivo, nos seus filhos, netos e nas próximas gerações. Democracia não é barganha. É responsabilidade. E isso começa no dia da eleição.
E fim de papo.

































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