Prédios brotam, o discurso oficial repete a antiga máxima da “qualidade de vida”, só esqueceram de avisar o trânsito local, o saneamento não completo, a mobilidade urbana defasada
Uma coisa é fato: Barueri cresceu. Cresceu muito. E cresceu rápido. Contudo, o problema é que esse movimento foi como quem corre sem olhar para frente, sem pensar no futuro. Prédios surgiram e ainda surgem em ritmo bem acelerado, novos empreendimentos praticamente “brotam” no espaço urbano e o discurso oficial continua repetindo a antiga máxima dos anos 90: “qualidade de vida” – como se ela ainda fosse automática atualmente. Só esqueceram de avisar o trânsito local, o saneamento não completo, a mobilidade urbana defasada e o próprio cidadão que enfrenta tudo isso no cotidiano.
O resultado está no dia a dia, de forma inegável: ruas congestionadas em horários que antes eram muito tranquilos, bairros sobrecarregados, infraestrutura esticada no limite do possível e serviços públicos tentando acompanhar um crescimento que nunca foi realmente planejado para a cidade. Construir não é o mesmo que planejar. E os gestores públicos da cidade ainda não perceberam isso… Autorizar prédio não é o mesmo que pensar o futuro da cidade. Tem um abismo entre esses campos! Mas, por aqui, muitas vezes isso foi e ainda é tratado como sinônimo.
A lógica parece até simples: quanto mais prédio, maior a arrecadação. E por aí segue o raciocínio inábil: quanto maior a arrecadação, melhor a cidade. Só esqueceram de um detalhe básico – cidade não é uma planilha de Excel. A cidade é gente vivendo, circulando, respirando, tentando chegar no trabalho, gente que leva o/a filho(a) na escola e volta para casa sem ter que perder duas horas no trânsito. Dessa forma, quando o crescimento vira descontrole, a qualidade de vida vira puro marketing. Alguma semelhança com a atual realidade?
Hoje, o morador de Barueri sente isso no cotidiano. Sente no tempo perdido, no barulho constante, na falta de áreas verdes bem distribuídas, na pressão sobre o transporte público e na sensação de que tudo ficou mais “apertado”. Barueri não ficou mais viva – ficou mais cheia e mais barulhenta. E essas duas coisas são bem diferentes.
O mais irônico disso, no entanto, é que o discurso oficial ainda tenta vender a ideia de que aqui é a “cidade-modelo brasileira”, enquanto a experiência real do cidadão aponta para uma cidade cansada, quase parada pelo trânsito que não permite se deslocar sem se estressar. Uma cidade que cresceu sem pensar no amanhã – seja por incompetência ou por escolha no passado – e agora corre atrás do prejuízo urbano deixado por decisões tomadas no improviso ou por amadorismo no comando da coisa pública.
Planejamento urbano não é luxo de cidade rica. Pelo contrário! É uma obrigação básica do que se espera de uma gestão pública responsável. Significa pensar onde construir, como construir, para quem construir e com qual impacto para os próximos anos. Significa parar de tratar o território como mercadoria (ou moeda de troca) e começar a tratá-lo como espaço de vida de pessoas que vão criar famílias e desenvolver histórias na cidade.
Se Barueri quiser, de fato, recuperar a tal “qualidade de vida” propagada aos quatro cantos – aquela que sempre aparece nos folders e slogans das onerosas campanhas de marketing – vai precisar parar de apenas crescer e começar a organizar o próprio crescimento. Isso já pensando no atraso de tanto tempo que terá que ser resolvido atualmente, porque a cidade é viva e novos desafios vão surgindo na mesma proporção que os antigos ainda não se resolveram.
Lembremos, também, que cidade boa não é aquela em que se constrói mais prédios. É aquela que, de fato, constrói melhor a vida de quem mora nela.
E fim de papo.

































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