Controversa, usina que transforma lixo em energia começa a operar em 2027

Instalação da Unidade de Recuperação de Energia (URE) na Aldeia de Barueri, em construção, ainda gera debates relacionados ao processo de queima de lixo e suas consequências ambientais

Cauê Rigamonti

Em 2027, Barueri pode tornar-se referência em “turismo técnico” com a instalação de uma usina que gera energia elétrica a partir da queima de resíduos sólidos urbanos (lixo). Apesar de não ser a primeira do Brasil a possuir uma URE (Unidade de Recuperação de Energia) – Joinville (SC) acabou de inaugurar a sua usina –, a cidade pode se tornar referência para estudos e pesquisas do setor porque o equipamento ficará ao lado da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) da Sabesp, o que viabiliza a utilização de água de reuso no processo de queima do lixo.

Ainda assim, cerca de 20 anos depois de as discussões sobre a construção da URE começarem em Barueri, sua instalação ainda enfrenta certa resistência na cidade, em especial de parte dos moradores do bairro (veja mais abaixo). Os questionamentos giram em torno de suas consequências ambientais, principalmente.

O modelo gera energia a partir do calor liberado pela queima controlada do lixo, em um processo que trata os gases e sobras gerados, diminuindo em 90% a massa de descarte.

A URE Barueri tem previsão de começar a operar no primeiro trimestre de 2017, na Aldeia de Barueri, em uma área de 37 mil m², por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP) com a empresa Orizon Valorização de Resíduos.  Deve processar até 870 toneladas de lixo por dia, gerando 20 MW de energia. Além de Barueri, a usina vai receber resíduos de Santana de Parnaíba e Carapicuíba.

A energia da URE Barueri será distribuída por meio da construção de uma Linha de Transmissão de aproximadamente 300 m de extensão e será conectada a Linha de Transmissão 138 KV já existente da Enel.

Projeção digital da URE que está sendo construída na Aldeia de Barueri

Governo não quis assumir pepino

A proposta de PPP vinha desde a década de 2000, mas o processo de instalação da URE Barueri começou a “pegar corpo” a partir de 2013, quando a Prefeitura organizou uma comitiva de formadores de opinião, políticos, líderes comunitários e jornalistas que viajou para as cidades de Antuépia (Bélgica) e Paris (França). Lá, os visitantes conheceram a tecnologia da URE e também uma usina instalada no país francês. Eles ficaram na Europa entre 31/10 e 6/11.

A visita técnica à Europa teve um objetivo bem claro – tentar aplacar as opiniões contrárias a instalação de uma usina do tipo na Aldeia de Barueri, onde parte da população já protestava – tanto é que o governo municipal, entre 2005 e 2012, paralisou os debates e tratativas para a PPP justamente buscando evitar possíveis prejuízos político-eleitorais.

Secretário de Comunicação Social da Prefeitura de Barueri em 2013, e responsável pela escolha dos membros da comitiva que foi à Europa, Waine Billafon acredita que Barueri passará a ser referência no “turismo técnico” a partir da instalação da URE, já em construção. E se lembra bem dos debates acalorados que giravam em torno da construção da usina na Aldeia de Barueri.

“Eu via muito mais um movimento político, de um núcleo caseiro, que técnico, de gente apontando que as chaminés poderiam causar problemas de saúde na população do bairro, por exemplo. Agora, ninguém de Alphaville, onde moram e trabalham engenheiros e técnicos de fato qualificados, se opôs ao projeto da usina – e Alphaville também está ao lado da URE”, pontua Billafon.

Ele lembra que todas as argumentações contra a URE – de que sua fumaça “geraria câncer” ou provocaria “o nascimento de crianças defeituosas” – foram tecnicamente rebatidas. “É uma tecnologia completa, incluindo filtros nas chaminés, por exemplo. Em 2013, a comitiva visitou uma usina instalada em Paris – quer prova mais que contundente? Uma cidade como Paris possui uma URE porque sua população sabe da importância desse processo, mas também porque os parisienses compreendem que não há risco ambiental e de saúde nenhum”, explica.

Foto aérea das obras da URE na Aldeia de Barueri

Era contra, hoje é a favor

Em 2013, Leandro Dantas, morador da Aldeia de Barueri e líder comunitário do bairro, era um dos que levantava bandeiras contra a instalação da URE. Então com 24 anos de idade, foi um dos “convocados” à comitiva que foi à Europa. “Sim, eu mantinha uma luta contrária na época. Quando voltei de lá, mantive essa posição, mas em especial porque lá na Europa, todo o ganho da URE era revertido para o coletivo, e aqui apenas para a empresa da PPP”, lembra ele.

Hoje, em seu segundo mandato como vereador de Barueri, Leandrinho Dantas admite que, com o passar dos anos, mudou de posição. “Evidentemente, até por conta da experiência maior e o fato de eu ter me tornado vereador, você acaba ouvindo melhor os dois lados. A URE é uma boa solução para o nosso lixo, principalmente por causa dos locais de descarte – já tivemos um desativado, e hoje precisamos levar nosso lixo pra Santana de Parnaíba, uma operação cara, fora o fato que um dia o local lá também vai precisar parar de receber lixo, e vamos ter que mandar os resíduos pra mais longe ainda”, argumenta.

Leandrinho, no entanto, sabe que ainda há moradores do bairro que são contra a instalação da URE, e acha que falta ainda muita divulgação por parte da empresa da PPP acerca de como funcionará a usina. “Falta informação, falta debate, e eu pretendo cobrar isso da empresa, porque mesmo sendo a favor, preciso também defender o interesse dos moradores do bairro onde moro”, aponta. “E, como vereador, evidentemente que vou acompanhar todos os passos junto aos órgãos que regulamentam e fiscalizam esse tipo de empreendimento. E pretendo também manter uma fiscalização permanente junto à própria administração da URE.”

Outra projeção digital da URE que está sendo construída na Aldeia de Barueri