Barueri se transformou em uma cidade cercada, não só por muros de concreto, guaritas e portões automáticos, mas principalmente por muros invisíveis, aqueles que separam pessoas, bairros e realidades totalmente distintas
Barueri atualmente se transformou em uma cidade cercada. Não só por muros de concreto, guaritas e portões automáticos, mas principalmente por muros invisíveis, aqueles que separam pessoas, bairros e realidades totalmente distintas. Quanto mais a cidade cresce e se expande, mais ela se fecha em pequenos mundos particulares. Cada condomínio vira uma ilha, uma “bolha”, com regras próprias, segurança privada e a ilusão de que dá para viver bem isolado de todo o resto da cidade.
O discurso disseminado é sempre o mesmo: segurança, conforto e “qualidade de vida”. Mas o efeito colateral disso tudo raramente entra no debate. Quando a cidade se fragmenta nessas bolhas, o espaço público automaticamente perde importância. Praças ficam vazias (apesar de estarem sempre fazendo reformas constantes ou reconstruindo a mesma praça), ruas viram só caminho de passagem e o senso de comunidade – que já era pequeno – praticamente desaparece. O cidadão deixa de ser morador da cidade de Barueri para virar morador do próprio “quarteirão murado”.
Essa lógica cria uma Barueri partida. De um lado da cidade, bairros fechados, arborizados e bem iluminados – um modelo considerado muito bom para se viver. Do outro, áreas praticamente esquecidas, com infraestrutura precária e pouca atenção do poder público. Veja que aqui não é um critério somente de diferença econômica – é a diferença de acesso, de infraestrutura, de oportunidades e até mesmo de voz política, pois quem mora atrás dos muros, por algum motivo muito particular da gestão municipal nesse momento, costuma ser mais ouvido.
O problema aqui, que eu chamarei de “arquitetura do isolamento”, não resolve o que promete ou prometeu no passado. É muito perceptível: não elimina violência, não cria uma cidade melhor e não gera convivência saudável. Pelo contrário: reforça as questões de desigualdades, aumenta sobremaneira as desconfianças e transforma o espaço urbano em território de medo. Todo mundo passa a viver em modo de alerta, mesmo cercado por câmeras, equipes e cercas elétricas.
E aqui entra a responsabilidade da gestão pública – essa já tão esquecida nessa altura do campeonato… Uma cidade que permite crescer apenas para dentro de condomínios fechados está abrindo mão do espaço público como projeto político. Isso demonstra que está terceirizando a segurança social em segurança privada, o lazer público para clubes e demais estruturas e convivência entre seus cidadãos. Está dizendo, sem falar, que cada um cuide de si e “Deus de todos” – e que a cidade vire só pano de fundo para discursos vazios e prolixos – como há mais de uma década ocorre.
Barueri precisa decidir que tipo de cidade quer ser: um conjunto de fortalezas particulares monitoradas ou um espaço coletivo vivo, seguro e integrado. Porque muros podem até proteger propriedades, mas nunca vão construir cidadania. E cidade sem convivência não é cidade — é apenas um aglomerado de endereços.

































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