A cidade que vira as costas para sua própria juventude

O poder público gosta de discursar sobre inclusão e oportunidades para jovens, mas quando a juventude organizada cria sua própria oportunidade, sem pedir permissão, a reação muda

Na segunda-feira, Barueri tomou uma decisão que diz mais sobre o poder do que sobre a juventude: impediu a realização da tradicional “Batalha da Aldeia”. Um evento cultural consolidado – reconhecido nacionalmente – que reúne jovens, promove arte e cria pertencimento foi tratado como um verdadeiro incômodo. Não como política pública em potencial. Não como patrimônio cultural vivo. Foi como problema.

A Batalha da Aldeia não é desordem. Não é ameaça. É organização espontânea da juventude. É microfone aberto em vez de silêncio imposto. É rima no lugar de violência. É ocupação legítima do espaço público por quem raramente tem voz institucional. Em vez de reconhecer isso, a resposta foi proibir. Típico dessa atual gestão: é sempre mais simples interditar do que dialogar.

O curioso é que o poder público gosta de discursar sobre juventude, inclusão e oportunidades para jovens. O mesmo poder público que costuma celebrar grandes eventos com palco, luz e artista contratado, mas se incomoda quando a cultura nasce de baixo para cima. Quando a juventude organizada cria sua própria oportunidade, sem pedir permissão, a reação muda. Cultura de base não cabe em gabinete. Não tem roteiro aprovado nem protocolo ensaiado. É viva, crítica e às vezes incômoda. E talvez seja justamente isso que incomoda.

Proibir uma manifestação cultural desse porte não é um ato administrativo neutro. É uma escolha política. É optar por uma cidade controlada em vez de uma cidade participativa. É preferir o silêncio organizado ao debate espontâneo. É tratar a cultura como risco, quando ela é solução.

A Batalha da Aldeia já salvou jovens, revelou talentos, construiu trajetórias. Para muitos participantes, é mais eficaz do que qualquer palestra motivacional ou programa burocrático da cidade. Ela gera pertencimento, autoestima e horizonte. Ignorar isso não é apenas miopia cultural – é negligência social.

Barueri precisa decidir que cidade quer ser: uma que apoia sua juventude ou que a reprime quando ela se organiza? Uma cidade que investe milhões em concreto, mas falha em reconhecer o valor das palavras? Cultura urbana não se combate com proibição. se constrói com diálogo, estrutura e respeito. E quem não entende isso não está governando para o futuro – está administrando o medo.

E fim de papo.